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sexta-feira, 18 de abril de 2008

DE UM LADO CANTAVA O SOL

De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!

Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!
De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?

Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!

Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim . . .
Cecília Meireles

...o que espera do outro lado de cada um?!...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

ROLA A CHUVA


"O frio arrepia
a moça arredia.



Arre

que arrelia!




Na rua rola a roda...

Arreda!



A rola arrulha na torre.




A chuva sussurra.




Rola a chuva

rega a terra

rega o rio

rega a rua.




E na rua a roda rola."



Cecília de Meireles, Ou Isto Ou Aquilo, 15ª ed., Ed. Nova Fronteira, 1990.

...neste momento, o que é que ROLA/ RODA em cada um de vocês?!...

domingo, 13 de abril de 2008

TOP 5 OBJECTO KITSCH

“O kitsch é um termo de origem alemã (verkitschen) que é usado para categorizar objectos de valor estético distorcidos e/ou exagerados, que são considerados inferiores à sua cópia existente. São frequentemente associados à predilecção do gosto mediano e pela pretensão de, fazendo uso de estereótipos e chavões que não são autênticos, tomar para si valores de uma tradição cultural privilegiada. Eventualmente objectos considerados kitsch são também apelidados de “brega” no Brasil.” (in Wikipédia) A propósito de um comentário que há uns tempos deixei no blog da Teté, lembrei-me de um objecto de decoração de dúbio gosto, que há uns anos atrás era frequente ser avistado na parte traseira dos automóveis…e esse mesmo objecto (que irei integrar no meu TOP 5) deu-me ideia para fazer um TOP 5 KITSCH. O Kitsch segue alguns princípios como o da inadequação (coisas despropositadas em relação ao espaço, à função, tamanho…); o da acumulação (independentemente do seu uso e do seu valor, subjugado ao valor sentimental, criam-se autênticos depósitos de objectos!); o da sinestesia (a profusão e mistura de todos os sentidos nos diversos objectos, apelando ao gosto, ao tacto, à visão, ao olfacto e audição); o da mediocridade (quando os objectos em questão fogem do discreto e atingem graus do exagero, passando pelo vulgar) e o princípio do conforto (o que não incomoda e causa um determinado prazer é facilmente aceite).
O kitsch traduz na sua essência, e neste caso em particular, objectos de gosto bastante discutível que, contudo, não deixa de ser integrado, hoje em dia, como uma forma de arte moderna, um “novo barroco”.
Assim, apresento-vos o meu TOP 5 de OBJECTOS KITSCH:
1º: CÃO DE LOIÇA (lembram-se daqueles grandes cães de loiça, geralmente dálmatas, que se encontravam à porta de casa, no corredor e no hall da entrada?!)
2º: CÃO QUE ABANA A CABEÇA NA PARTE TRASEIRA DO CARRO (havia assim uns cães, que tinham uma cabeça que abanavam com o movimento do carro…aquilo parecia quase retirado do filme do Exorcista!)
3º: NOSSA SENHORA DE FÁTIMA QUE BRILHA NO ESCURO (assim com uma luz verde, meio fosforescente, que atingia o seu máximo esplendor no escuro)
4º: GALO DE BARCELOS EM CIMA DO FRIGORÍFICO (os típicos galos de Barcelos…mas tinham de estar mesmo em cima do frigorífico, entre outros bibelôts!)
5º: FLORES E CORTINAS DE PLÁSTICO (mas mesmo de plástico, daquele que não o disfarça; de uma consistência rija, com pó à mistura e de diversas cores garridas!).

E há muitos mais…e em várias outras temáticas, que depois voltarei a apresentar aqui na Teia (penso eu!). Então, vou transformar este post num desafio: DESAFIO KITSCH que vou passar a algumas vítimas, sendo que a regra é apenas fazer o seu TOP e passar a quem quiser: teté, Alice, carmenzita, Kátia, littledragonblue, lenita, matchbox31, paulinha, som do silêncio, gerlane, muguet, carteiro, tons de azul, borboleta, nelinha, liz, papoila, ana scorpio, butterfly, taliesin, azer mantessa, /t., un_dress, bono_poetry, ruela, impulsos, bia, Sandra Daniela, Reflexos… e quem mais por aqui passar e quiser levar o DESAFIO KITSCH!
NOTA: Oiçam bem esta grandiosa letra do ROUXINOL FADUNCHO, do tema “Cães de Loiça”! Temos fadista! E já agora, vejam bem o clip…


sexta-feira, 11 de abril de 2008

DESAFIO MUSICAL - 2ºtema: MIKE OLDFIELD com "Moonlight Shadow"

Fechada no mundo mais estranho aos olhos dos outros. Calada e em guarda. Expectativa desafiadora e desafiada. Assim seguia a vida. Assim a vida me seguia. Como num compasso de espera em que sabia que podia vir muito mais. Despertava para o mundo do esotérico. Buscava apaziguar a inquietação da alma. Existia alma?! E o remédio para ela, Senhor Doutor?! É que a partir do momento em que a descobri começou a doer! Aqui dentro de mim…não sei bem onde.
Há mais coisas por descobrir no nosso mundo inteiro…mas os anos talvez não cheguem para tal…por isso, deixa-me ir ver o “Verão Azul” e assobiar despreocupadamente à vida lá fora, de bicicleta empunhada e o vento como companhia.
O doce dos sonhos coloria as componentes da vida. Continuava a gostar da “Candy Candy” sem perceber porque é que a tinham proibido na televisão.
No segundo ciclo da escola, o meu grande amigo Dinis declarou-se-me, apaixonado…corri atrás dele não para o abraçar…levava na mão uma pedra da calçada! E à saída da aula de português, o Dinis fugiu de mim apavorado. No meu mundo ninguém entrava.
Procurava os livros, as páginas, o som do vinil e da cassete…neles encontrava o mundo que me descansava. Encantadora magia que me acalmava. E me elevava. Para além do tal real e aparente, descobria que podia haver muito mais, rico e criativo, pronto a florescer dentro de nós!
De noite com a Lua conversava, enquanto na igreja ajoelhava, sem entender as homilias do padre. Sabia que queria saber. Perceber melhor o que guiava a fé dos adultos. E o que me faltava a mim para conseguir acreditar em alguma coisa. Apenas sentia que o pequeno quadro na parede, por cima da minha cama, era muito poderoso. Tão pequeno como um ex-voto; representando uma linda e admirável história: a de S. Jorge e o Dragão. Um dia eu conto-vos. Na realidade, mais tarde vim a descobrir que é o meu guia espiritual…o equivalente a um Ógum, no Candomblé. “Armas de fogo meu corpo não alcançarão/ Facas e espadas se quebrem sem o meu corpo tocar./ Cordas e correntes arrebentem sem o meu corpo amarrar./ Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge/ Jorge é de Capadócia/ Salve Jorge! Salve Jorge!" (Jorge da Capadócia - Jorge Benjor)
De noite, os ecos do passado batiam nas paredes e os pesadelos, espíritos e fantasmas assaltavam-me. A primeira dose de consciência e de inconsciência fazia-se anunciar.
De dia brincava. Estudava. Escrevia histórias com finais felizes que terminasse as inquietações das personagens que inventava. Dizia que havia de ser professora, ou pintora, ou estilista…mas queria inventar e criar qualquer coisa. Inventei? Não sei.
Sei que o meu mundo interior crescia e desenvolvia-se ao som das minhas músicas. Aquelas que eu escolhia e me ajudava a conhecer para além do que estava aparentemente à minha volta. Cassetes e walkman, fones nos ouvidos...alienava-me de tudo.
Queria um cão ou um gato. Não mo deixavam ter. Sujariam tudo lá em casa.
Tinha mais irmãos nos meus vizinhos da casa ao lado. Até caímos das varandas abaixo, o equivalente a um primeiro andar alto, por tanto nos debruçarmos em conversas em fio…sorte nossa: por debaixo estavam umas tábuas de construções (sem pregos nem perigos) que nos acolheu a queda.
Mas nós não tínhamos medo de cair. Nem de magoar os joelhos, nem do aspecto das feridas, nem nos fechávamos em casa ao computador, nem tínhamos medo da rua nem das pessoas que andavam nela. Confiávamos no nosso poder de existirmos simplesmente no mundo.

“Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.”

Este post resulta ainda do DESAFIO MUSICAL que aceitei responder. Os meus desafiados, pelo que ando a ver, conseguem, na sua maioria colocar logo a lista dos seis temas musicais que se destacaram ao longo das suas vidas. Estou em dúvida se conseguirei cumprir para com esta lista…afinal, este ainda é o segundo tema. Para relembrar, o primeiro tema foi PINK FLOYD, com “Another Brick In The Wall”. Escolhi este tema de Mike Oldfield (apesar de ser o mais “comercial” ou conhecido) porque na altura foi realmente o que comecei a ouvir. E transportava-me para um ambiente inexplicavelmente e familiarmente antigo, de outras eras que não aquela em que eu vivia… mas pessoalmente, sou mais fã dos temas instrumentais deste artista (que aconselho a ouvir!).
Até à próxima (que espero que seja mais em breve!).

terça-feira, 8 de abril de 2008

...TODAS AS PALAVRAS...

As tuas palavras
São como luzes de estrela-guia,
Atravessando os tempos perdidos.
As tuas palavras
São como fios de água
Formando rios em desenhos esquecidos.
As tuas palavras são como amigos
Juntando carinho em corações adormecidos.
As tuas palavras
São como sementes
Em cantinhos antigos.
As tuas palavras são como o arco-íris
Desfazendo lágrimas de pesadelos inimigos.
As tuas palavras...
Pelas tuas palavras
encontro sempre o caminho
Onde mora a felicidade.
Ainda queres abrir-me a porta?
A porta que está aberta a todos os que desejarem entrar;
Se existem palavras que nos mostram os caminhos da felicidade,
Isso é porque essas palavras são, na verdade, as nossas palavras.
As lágrimas e os pesadelos não passam
De felicidade adiada, porém, por isso
Amplificada.
As palavras que são sementes
Tocam-nos e para sempre se tornam nossas
E encaixam na nossa alma
Como num qualquer puzzle divinamente arquitectado.
As palavras que são nossas são amigos,
Velhos conhecidos que ficamos felizes em rever.
As palavras que são nossas despertam em nós
Desenhos esquecidos
Renovam e trazem de novo à vida
Ideias, sentimentos e sensações tão antigos
Que já não pertencem a esta vida
Por maior esforço que façamos,
A nossa memória e a nossa razão
Não nos revelarão o momento em que foram aprendidas
Simplesmente o nosso coração
Dir-nos-á que são antigas
E nossas.
As palavras que iluminam
Iluminam apenas o que existe
E o que existe existe mesmo sem luz.
As palavras que são nossas
São intemporais
Atravessam tempos perdidos
Mas regressam sempre a nós
Por mais vidas que passemos
Perdidos
Das nossas palavras.

...desta vez as duas vozes tomaram forma através de um poema meu (a amarelo-mostarda), retirado do livro Riscos que ficaram no Tempo/ Jogo de Espelhos, de Susana Júlio & Carmen Ferreira, e a sábia continuação pelas palavras da Lenita do blog Impressionantes Impressões, (a azul). Há palavras que se podem entrelaçar e, entre os extremos dos sentidos, viajar entre todos os seus significados possíveis, nunca deixando de serem válidas para quem as lê e para quem as sente...sempre como suas.

Adorei Lenita. Um verdadeiro privilégio juntares a alma das tuas palavras às minhas. : )

E fica, já agora, como sugestão, o novo e tão esperado álbum (há anos!) dos Bauhaus: "Go Away White".

sábado, 5 de abril de 2008

AFINAL QUAL É A RAÇA PERIGOSA?!

O meu Sky foi atacado por um pastor alemão. Não foi este o atacante! Este é apenas o REX, o arraçado de pastor alemão de uns tios meus, que é um "menino grande"!

Como se não bastasse, era daqueles pastores alemães maiores do que o comum na raça...e não estava virado para fazer grandes mossas por isso, "apenas" feriu, com alguma gravidade, de um lado do focinho, perto da vista e, do outro lado, perto da mandíbula. "No meio deste azar todo, ele até teve sorte", disse várias vezes o veterinário que o tem acompanhado. Por milímetros poderia ter afectado a mandíbula, sem reparo, ou até mesmo cegado. Seja como for, o estrago foi o suficiente. Teve de ser operado. Todos os dias leva uma injecção de antibióticos e para a semana já deve tirar os pontos. Para não estragar nada, tem de andar com o "candeeiro" (como eu lhe chamo!) de modo a não romper os pontos com as patinhas.
O pastor alemão, há uns anos, pelos vistos já atacou o cão da minha vizinha, que teve de ser operado, ficou internado e por aí fora. Deve já ter uma lista de encontros imediatos de primeiro grau, com cães de porte menor. Os donos não alteram a sua atitude: ou seja, fazem passear a sua mascote sem trela nem açaime, à solta pelo jardim e pelas ruas. O inevitável só pode acontecer, não é?! É uma questão de atitude, de consciência, de educação e de respeito pelos outros.
Esta lei que o Governo quer levar a cabo, das 7 raças potencialmente perigosas (a saber: Cão de Fila Brasileiro, Dogue Argentino, Pit Bull Terrier, Rottweiler, Staffordshire Terrier Americano, Staffordshire Bull Terrier e Tosa Inu) vai no sentido de ser proibida a importação, reprodução e criação destas raças de cães em Portugal. Adicionalmente vão ser esterilizados os cães existentes. O resultado é obviamente o extermínio dessas raças em território nacional nesta geração. Quem declara estar em posse destes animais terá de cumprir a lei e proceder à castração...quem não o fizer, geralmente os donos de cães que os usam para jogos de guerra, conflitos de bairros e por aí fora, provavelmente não terão esse cuidado e o problema continuará.
Para além de que, continuo a defender que o problema não está nestes cães nem nos seus genes, mas sim nas pessoas que os têm, criam e educam. Tenho um familiar que faz criação de Pit Bulls Terriers. São as cadelas mais doces e meigas que podem existir. O ambiente familiar dos seus donos é extremamente saudável e responsável.
Este aqui é o Casper (um Dogue Argentino), no seu momento de "espreguicite"!

Tenho outro exemplo do Casper, o cão da minha grande amiga Lu. É um Dogue Argentino. Quem o vê fica quase paralisado...na realidade, é outro doce de cão que só quer brincadeira e companhia. Já andou na brincadeira com o Sky, na praia, e foi mordido por este último, portanto, estão a ver o seu grau de ferocidade, não?!
Olhando para este infeliz caso que, lamentavelmente, sucedeu com o Sky, a minha revolta vai toda para os donos daquele pastor alemão, que não o souberam educar ou conviver correctamente com ele. Para além de que, não são nada o exemplo de civismo, pois mesmo sabendo do perigo que o seu cão pode representar para outros, continuam a dar os seus passeios nocturnos, com o cão completamente à solta, como se nada fosse com eles.
Esta lei de extermínio devia poder ser aplicada a pessoas como estas que não sabem, afinal, viver em sociedade.

Entretanto, o meu Sky vai sofrendo aqui em casa as suas dores e recuperando, aos poucos e poucos, com todos os mimos a que tem direito e muitas atenções... nossas e também da Átia! Até ela quer perceber o que é que se passou, afinal!
Valeu para o susto e para os nervos! Consegui ver a vida andar toda para trás...para quem não compreende...o Sky é um grande amigo meu já há quase 10 anos!

Em nome do Sky, dedico este excelente tema de grande letra, "PETS" dos Porno For Pyros, para todos os humanos com este género de atitudes irresponsáveis, mas que, contudo, se afirmam muito "racionais"!

"HASTA LA VISTA!"

segunda-feira, 31 de março de 2008

TEMPO DAS SOMBRAS

...parece que qualquer passo que dou afasta-me a mim mesma para além da carne ousada a alma desprendida e eu não sou eu nem outra como dizia o poeta porque assisto-me impotente na marcha indiferente em cãmara lenta até ao final dos dias de quem quem quer que seja até dos meus e a sombra que pestaneja à luz do fogo do meu olhar não é mais do que um abrir e fechar de olhos que demora uma eternidade até conseguir ver alguma coisa de jeito...defeito meu... ...somente silhuetas de um tempo que as sombras não apagam...noites de medo que exalam sentidos esquecidos...variações de humor por um vestir de pele sem roupa quente...o tempo não apaga...aumenta, não de forma desigual... aumenta no tempo... no meu... tempo cronométrico..aquele me faz ver sem ponteiros a deslocação da vida... ...em que as sombras se queimam a contra luz como se fossem asas de borboletas semi-apagadas na noite quente e nua...a pele transparente marcada pelo tempo cronométrico inspira expira a vida voraz entre os soluços da morte...em qualquer tempo...o teu, o meu, o deles...
...maldito tempo......refugio em ti entre grãos de areia...não desertifico o meu eu ...queima o pouco das cores...refaz tela ...se justo dá-me cor...nos azuis de mariposa...no movimento da garça...no pelicano me escondo das sombras que trago...enleva o meu dar...vem, deixa sair desta caverna...atrasa o meu tempo!!! ...entre grãos de areia a tempestade de nada saber...o eu passa a dois quando a sombra se põe atrás de mim e é artista impregnado na sua obra de tintas e de pincéis sem nexo e sem direcções sendo cada uma delas semelhante a pequenos oásis que voam a cada aproximação...e a cada fuga do Tempo...a caverna está em mim e quem está nela conhece o meu monstro...sou eu o próprio tempo...
...um diálogo a duas vozes, coerente, mesmo que parecendo algo alucinado, que foi surgindo a partir do primeiro texto a rosa (su), e com continuação a azul (do bono_poetry, do blog TEMPOCRONOMÉTRICO), e depois a rosa novamente, azul, e assim sucessivamente...
Sugestão musical: álbum "Cascade", de PETER MURPHY

sexta-feira, 28 de março de 2008

Portishead, Coliseu dos Recreios 27/03



P-E-R-F-E-I-T-O!

Após a bem recebida actuação do grupo húngaro “A Hawck and a Hacksaw”, que se assemelha muito ao som de Emir Kusturica, as luzes ligaram-se para revelar um Coliseu cheio pelas costuras e onde tresandava a expectativa e tensão no aproximar do momento esperado. Depois de um silêncio de dez anos, “Silence” rompeu a barreira da ausência musical desta banda de Bristol, que, por coincidência, inaugura também o novo álbum dos Portishead, “Third”. Um alinhamento equilibrado entre os novos temas de um grande álbum que, ao vivo, ganham uma ainda maior dimensão e os outros temas extraídos dos anteriores álbuns “Dummy” e “Portishead”. A voz de Beth Gibbons é perfeita e, muitas vezes, arrepiante, e tem o seu expoente máximo na sublime versão acústica de “Wandering Star”, em que na parte final é surpreendente a tonalidade lírica da sua voz, assim como nos temas “Cowboys” e “Threats”.

Os simples jogos de luzes conjugados com as câmaras colocadas perto dos músicos, criaram um belo e negro ambiente cinematográfico, onde podemos realçar o efeito de sombras, em que os gestos dos artistas são projectados num dos lados da sala do Coliseu.
Não podemos deixar de referir a despedida de Beth Gibbons quando desceu do palco na última música do encore, para se confundir com o público, distribuíndo toques e abraços, sendo alvo de procura da banda, quando esta se retirava.

O que mais dizer deste concerto? Nada mais do que as sensações do que nos provocaram e que ainda hoje nos acompanham, com um sentimento de nostalgia e saudade…somos unânimes em concordar com a crítica de Nuno Galopim quando este caracteriza o concerto e os novos sons como uma “visão de uma música feita de quase nada, contudo intensa” (…) usando o ruído, a máquina, a textura, como elementos de protagonismo cénico em composições que concentram na voz a expressão maior da condução da melodia. “ (…) carga metronómica do vai vem pendular da existência urbana “.

Será este o novo estilo musical de um futuro próximo ou apenas mais um brilhante e talentoso devaneio artístico dos Portishead? Seja o que for, aprovamos e queremos mais…e mais.

Texto Por Taliesin e Su


quarta-feira, 26 de março de 2008

CENAS DO CIRCO - PARTE 3: Lua de Mel/ Lua de Fel com a D.G.I.

Aquela conversa de bastidores entre os dois deputados de um dos posts anteriores aqui da Teia, continuou! Sem mais nada para fazerem, a caírem de tédio nos seus luxuosos escritórios e ainda a ganharem balúrdios de dinheiro para continuarem assim! Desta vez, porém, juntou-se à festa a Direcção Geral dos Impostos(que já andava de beicinho por não participar, também, na dança das cadeiras do poder e do estrelato!). - Larga lá esse cubo mágico e anda aqui fingir que trabalhas comigo.
- Mas tu podes andar aí com o "io io" para todo o lado!
- Não sejas parvo! Isto é uma forma prática de treinar a forma como intelectualmente exerço o meu poder com o Zé Povinho: para cima e para baixo, presos por um fio!
- Ahhhh…pensava que já te estavas a preparar para imaginar uma lei qualquer para pores os gajos da ASAE agora ocupados com a inspecção das brincadeiras das crianças e dos brinquedos com os quais brincam.
- Até que não é má ideia…mas fica para mais tarde. Eu ando aqui é com uma azia tremenda que não me deixa estar bem disposto… de cada vez que me lembro da minha ex-mulher que me deixou só porque não tive tempo para lhe dar a lua-de-mel que ela queria…
- Gaja ingrata! Estivemos sempre aqui os dois a trabalhar, que é que ela queria?!
- Pois…
- Eu se fosse a ti, desta vez, fazia uma lei qualquer do género que proibisse os noivos ou recém-casados de irem descansados para lua de mel!
-Epá…mas isso assim é muito descarado…teria de dar a volta à questão…é que dessa forma poderia dar a ideia de que estava a pô-la em prática, descarregando nos outros, todas as minhas frustrações e amarguras pessoais.
- Então…?!
- "Nã"…desta vez vou pôr a DGI a tratar do assunto. E vou substituir os quinze dias de lua-de-mel dos pacóvios românticos pelo prazo a ser cumprido por eles, para andarem a fazer declarações e juntar papelada e fotocópias…vão ter que prestar contas das despesas de todos os serviços prestados: desde quantas pessoas vão ao copo de água, restaurante, serviço de confecção de alimentos, iluminação, florista, fotógrafo, vestido da noiva…se foram coisas ofertadas, eles terão de chatear as pessoas que ofereceram para indicarem preços, número de identificação fiscal e locais de compra…em quinze dias apenas.
- Até eu já estou a ficar cansado!!
- E o melhor: há multas caso não o cumpram nesse prazo! Levam com um processo de contra-ordenação fiscal punível com uma coima que vai variar entre os 100 e os 2500 Euros!!
- Boa, Mike! Mas…olha lá, assim se calhar, continua a descer o número de casamentos e, mais tarde, de nascimentos aqui neste país…as pessoas não se querem dar ao trabalho…ou então, ainda pode dar azo a mais coisas escondidas e facturas não passadas e coisas não declaradas…
- Achas que sim?! Comem e calam-se! E mesmo que o haja…nós ainda levamos algum "pastel" dos totós que o declararem! E cá para mim, acho que ainda deviam declarar as despesas da noite de núpcias, propriamente dita. E colocar alguém da DGI a fiscalizar o momento! Tipo Idade Média…o Senhor Feudal…eheheheh…
- Podia ser eu!!
- Está calado! Tu ficas aqui comigo! E mais nada!
É de referir que esta lei já é de há sensivelmente 4 anos atrás, porém não deve ter tido muitos adeptos; por isso, voltaram a pegar nela na actualidade. Da maneira que a forma política de actuação deste governo anda só podia resultar numa coisa ridícula destas. Está certo que é de prevenir a evasão fiscal (que deveria ser controlada em TODOS os sectores!) mas há coisas nas quais se deve manter a cabeça no lugar, meus senhores! E não cair no ridículo. Realmente, até parece que não têm mais nada para fazer a nível profissional para além de tentar pôr em prática estas anedotas políticas.
Vão mas é ver o concerto dos Portishead amanhã à noite e tenham juízo!
P.S.: E, já agora, não se esqueçam de ir espreitar AQUI um comunicado de alguém que só faltou dizer:"Quem vos avisa vosso amigo é!"

domingo, 23 de março de 2008

RECONSTRUÇÃO

Tinha nas mãos os teus braços estendidos, sem perceber porque ficaste assim ali…impávido e sereno, com a morte como peso das tuas costas; com cada palavra que não disseste como prego arrependido, segurando-te à eternidade.
Caía suavemente dentro de mim o teu amor…um manto escuro por detrás da realidade que assomava à janela da inconsciência. Gota a gota, coração sangrando do sacrifício, soando as últimas palavras como sendo sempre as primeiras que eu esperava. A redenção do passado e a justificação da vida em frente.
Guarda a minha alma, material perene, dentro da tua…e quando ficares na cruz que seja a minha a ficar no teu lugar. Restando ao sabor do Tempo, lambida pela chuva, devorada pelo sol, acesa pelo ódio dos Homens, desgastada pelas suas mentiras e devassada em cada pretensa oração. Deixa-me ficar ali sozinha, mais só do que vou ficando, perante a incredulidade dos outros, que todos os dias fabricam os pregos que Te prendem a essa cruz. Pede a devolução da tua vida para outra vida melhor. Melhor do aquela que invadimos na privacidade das páginas sagradas escritas pelo Homem; aquele que foi dizendo que escutava sempre a voz do Teu pai, enquanto se esquecia de ouvir a própria voz dos seus semelhantes. Aceita a minha desconfiança como a única prova que Te reconheço mesmo assim…pois se não te desse o benefício da dúvida, não seria assaltada pela inquietação da tua existência. Perdoa qualquer coisa que eu não faça em Teu nome porque dizem que esse teu nome assim como do Teu pai não se conhecem e não podem ser soletrados. Não opero milagres nem pratico adivinhação. Não leio entrelinhas e sou cega a explicações. Não quero saber do próximo quando entre mim e ele não existe nada. Nascemos solitários e morremos da mesma forma, perante o circo desta vida, como consequência de um acto falhado de uma Eva perdida. Como se o primeiro erro humano fosse de uma mulher…sendo que o eterno erro humano é acreditar realmente nisso. Como a maça, não deito fora o pecado, abro os portões do teu Éden e deixo todos entrar. Combato o teu egoísmo e nivelo todos por igual. A serpente fica à porta e não te deixa entrar para que não caias em tentação de nos expulsar. Não há anjos caídos porque voam todos por igual.
E da costela do teu filho não nasce nada, nem homem nem mulher, a não ser a dor de pensar na sua solidão. Quem lhe molda o corpo, com mãos demiurgas e atentas, sabe tão bem como eu, que quem faz um faz o outro, mesmo que seja à sua imagem e semelhança.
Quando afasto a tua cruz do meu coração, em seu lugar, fica a sombra queimada na pele da tua existência. E continuam os teus braços nas minhas mãos e eu sem saber porque tinhas de ficar assim…sem mim…ou eu ali…ou outro…e não Tu…ou até porquê…se tudo o que fizeste ficou debaixo de tudo o que somos agora.
Do mundo que temos lá fora.