O segundo dia rompeu claro, no entanto demasiado cedo para uns mais obstinados em abandonar o aconchego da cama. Entre actividades de higiene pessoal, mais ou menos longas, e outros afazeres, rematámos o pequeno-almoço com a especialidade de uma pastelaria local, a queijada de laranja, e partimos para terras galegas, em direcção ao Castro de San Cibran de Las, na província de Ourense.
Este castro, de grande dimensão e ainda em fase de escavações, fica situado num monte ermo a partir do qual se pode contemplar o imenso quadro de colinas e vales que o circundam. Sob o sol quente do meio-dia, vagueámos no povoado, entre as três muralhas defensivas, em troços de ruas empedradas onde outrora circularam os seus habitantes.
De San Cibran, seguimos para o Castro de Santomé, desta feita a escassos quilómetros da cidade de Ourense. Apesar da proximidade da civilização, este conjunto arqueológico de vestígios castrejos e romanos parece perdido no meio de um bosque silencioso e antigo. A sua localização e alguns pormenores da sua construção levaram-nos a classificá-lo como uma estância de férias para os mais abastados. Provavelmente com direito a banhos no recolhido riacho que ali passa.
Depois de um almoço de sandes e sumos, porque o tempo e os meios eram parcos para grandes repastos, seguimos rumo à Ribeira Sacra, região que se estende ao longo dos vales dos rios Minho e Sil e assim designada devido ao elevado número de igrejas e mosteiros que aí se estabeleceram durante a Idade Média. Antes de desembocar no Minho, o rio Sil flui encaixado num profundo vale de enormes paredes graníticas, estabelecendo a fronteira entre as províncias de Lugo e Ourense. Segundo a lenda, esta fractura na rocha conhecida como Canón do Sil não é mais do que uma ferida provocada na Galiza pela deusa Juno quando o seu marido, Júpiter, se enamorou da terra galega.
Uma vez no Mirador de Cabezoas e depois no mirador Balcones de Madrid, sustivemos a respiração perante a beleza deste cenário natural. Procurámos planos e perspectivas para a melhor foto; nenhuma fez justiça à sua monumentalidade.
Entre o primeiro e o segundo mirador, visitámos o Mosteiro Santa Cristina de Ribas do Sil, ponto de paragem obrigatória na rota da Ribeira Sacra. O mosteiro, quase em ruínas, construído nas escarpas do Sil entre a densa vegetação de castanheiros e carvalhos, concede ao lugar uma atmosfera mística de encanto único. Há quem diga que as suas árvores centenárias semi-ocas têm a propriedade de curar certas maleitas se nos colocarmos no seu interior. Não falta mesmo a árvore dos milagres, repleta de pedidos e oferendas dos visitantes. O nosso também lá ficou, numa folha de papel A7. Não propriamente um pedido, mas um testumunho da nossa passagem por ali.
Já no final da tarde, apressámo-nos para o município de Castro Caldelas. Não queríamos perder a visita ao castelo, uma fortaleza medieval construída sobre um castro celta. Das suas muralhas e torres contempla-se toda a vila, um vasto casario com bonitos telhados de ardósia.
Deixámos o castelo e aproveitámos a esplanada de um café ali perto para um pequeno lanche. Uma empregada simpática serviu-nos, por conta da casa, quatro pedaços de um bolo típico da região, a bica amantecada. Agora sim, estávamos prontos para o regresso.Não me lembro onde nem o que foi o nosso jantar neste dia. Não me lembro se foi nesta viagem de regresso a casa que enchemos a barriga com riso.



























