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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

eu sei

sei que vou nesta estrada

ladeada de prédios infinitos e crescentes

com cortinas de gentes adormecidas

pensando que espreitam através das suas janelas

os telhados aguçados rasgando o céu da alma

e chove sangue, chovem pedras, chovem palavras

que tentam acertar nos incautos caminhantes

que se esqueceram do guarda-chuva

algures no canto negro da sua existência

sei que vou nessa estrada

e as florestas morreram nos sonhos de quem as queria conceber

sei que todos os dias se deitam palavras em vão nas cordas a secar

esperando que o sol de outro dia enxugue as lágrimas da noite anterior

sei também que que os estendais estão pejados de molas sem peças

que o vento assalta e leva os sonhos que se estendem nesse anoitecer

mas sei que,  por vezes, as gentes adormecidas despertam

e afastam as cortinas da languidez

e abrem as janelas das suas almas

e dizem olá com o coração

eu sei que sim



sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Sempre que olho para as horas vejo qualquer coisa para além delas que me costura à carapaça de um relógio batendo no lugar do coração.

sábado, 19 de junho de 2010

...hoje acordei vazio, sem saber sequer o meu nome, e quando passava a água fresca e verdadeira pelo meu rosto esta misturava-se com o sabor acre-salgado das minhas lágrimas...a ausência de um rótulo, que nos faça pertencer à sociedade em geral, deixa-nos perdidos no meio de tantas questões...a mais famosa de todas, aquela que dizemos "quem sou eu?", sendo que a reposta superficial de um nome apenas acalma, mas não sossega, a inquietação de uma alma que caminhou toda a vida pelo deserto sem perceber o verdadeiro significado de tanta coisa...sendo que por coisa se possa entender objectos, pessoas e sentimentos...
...quando olhei o espelho vi o fantasma de todos os dias passados que me assombraram à esquina da vida e continuei sem reconhecer aquela máscara que fazia todos aqueles esgares à frente do vidro samaritano que me devolvia a minha imagem exterior...queria que me assaltasse por dentro e me revelasse os despojos desse acto de guerra e me ajudasse a reconhecer alguma coisa que me despertasse e me fizesse dizer..."eu sou..." porque eu não sei quem sou......enquanto desfazia a barba pensei que este gesto herdado de não sei quantas regras sociais se assemelhava tanto ao doce desfazer da vida que nascia e que se acumulava ao nosso redor como se fossem estantes repletas de livros, muitos dos quais que nunca seriam abertos, ou por não se entenderem, ou por não revelarem o interesse que nos identifica ou, simplesmente, por sermos vítimas da nova doença da modernidade: o stress provocado pela falta de tempo......fazia o café quente e forte como se fosse uma cena sexual e sagrada e o orgasmo da vida se perpetuasse por mais do que uns meros segundos...aquele despoletar para a vida que me acordasse e me desafiasse para o resto do dia...mesmo sem saber qual é o meu nome...qual é o meu corpo...qual é o meu futuro......existe qualquer coisa nos céus, hoje, que me faz querer terminar com estes actos diários e ser apenas mais um revolucionário que aprendeu a voar para além das sombras ditadas pelas regras desta máquina infernal onde só se escutam as vozes simétricas da multidão going in to the slaughter......não me encontro em nenhum recanto da memória nem em nenhum recanto desta sala, sendo que todos estes objectos acabam por ser uma afronta ao meu caminho interior e ao meu espaço físico...não consigo dar nem mais um passo em frente ou sequer atrás e são as areias movediças desta confusão caótica que me sugam para o fundo de mim mesmo...não me reconheço......não me recordo de ti, tu que estás fechada por detrás de uma moldura de vidro, com o teu sorriso comprado depois de preencheres um impresso para sorrir, e que olhas directamente para mim como se me conseguisses varrer a alma inteira, deixando a nu este ser que se esconde debaixo de toda a sujidade de uma vida inteira acumulada à base de ser quem não sou...quem és tu, já agora?......quando olho para baixo, metros e metros de distância abaixo de mim, sei que não vai restar nada...e continuarão sem saber quem sou eu e eu próprio sem saber de que sou feito...por isso mesmo, deixo-me cair, como muitos mais fizeram antes de mim...os demónios também desistem dos mortais...por serem mais inocentes do que estes últimos...não são só os anjos que caem...por isso deixo-me cair enquanto as minhas asas negras se despedaçam ao contrário do vento......o coração continuava a bater...acordei e senti um vazio deixado pelo sabor doce e amargo do sonho...umas asas negras toldavam-me o raciocínio mas eu sei o que devia fazer nessa manhã como em todas as outras da minha vida...por isso...lavei o rosto com a água fresca, desfiz barba acumulada de mais um dia, bebi o meu café forte e acordei para mais um dia lá fora...

terça-feira, 11 de maio de 2010

...um texto para uma imagem...

foto de Bernardo Costa Ramos

Quase que chegou a horas daquela vez...
Toda a sua vida chegou sempre cedo demais a tudo o que fosse esperado chegar. Poderia fazer um relato extensíssimo, como se fosse a lista de compras de final do mês, e mesmo assim a vida não chegaria sequer para comprar tudo o que vinha nela.
Quando nasceu, cedo demais, disseram que parecia ser mais velho do que aparentava...estranha coisa de se dizer acerca de algo que acabara de despertar para a vida, contudo o consenso era geral. Na idade dos porquês já sabia as respostas antes da necessidade das perguntas, sendo assim não falava quase nada. Passava por um ser tímido, outras vezes pedante, por não dar o outro lado da sua face à sociedade que o rodeava. A sua própria sombra assombrava-se com tamanha rapidez e discrição do corpo ao qual estava associada, pois de cada vez que queria fazer a mimese do mesmo, a sua intenção estava dessincronizada alguns minutos...
O seu primeiro beijo perdeu o sabor antes de chegar aos lábios e morreu na vontade de ser dado. Tal experiência marcara-o tão intensamente que passou a julgar todos os casais de namorados como seres insensíveis que apenas representavam um papel ditado pelas normas sociais do estado humano. Eis a sua noção de tentar entender o mundo: como se fosse realmente um palco e cada um desempenhando um papel pago pelo destino. Batiam as palmas apenas aqueles seres iluminados como ele que conseguiam ver por detrás da cortina. E vivia cada um dos seus dias com a certeza de estar um passo à frente da própria Vida.
Quando proferiam o que quer que fosse à sua frente, de antemão a sua mente testava os limites da flexibilidade em termos de chegar a todas as interpretações possíveis e saber entrelinhas era ofício seu, sagrado como o de um deus menor.
Como estava tão ocupado com todas estas suas considerações, que achava de todo naturais, não se apercebia de que a Vida também era fruto do acaso, e dos contrastes, e das montanhas russas e pessoais, e todos esses afins desequilibrados. Viver como vivia era um todo monolítico que prendia muito mais do que a árvore secular que via través da sua janela, todos os dias. Estava lá e era apenas isso e nada mais, provando que bastava existir. Contrato assinado; dia acabado; missão cumprida...e comprida. Quem passava à sua beira, por uns instantes que fossem, sentia a âncora desse peso antecipado na sua determinação: a de que ele chegava sempre cedo demais porque sabia tudo.
Mas, desta vez, quase que chegou a horas...deteve-se a olhar para as aves que desciam sobre ele como se fossem buscar o pão de todos os dias directamente das suas mãos...um dos negros anjos alados olhou-o de frente e sentiu-se derrotado. Apesar de ser a hora de o levar...ele ainda assim, chegara um pouco cedo demais, antecipando-se à sua tarefa.
O corpo, mesmo que ainda inspirando e expirando alguns restos de vida, já estava vazio; a sua alma caminhava sozinha à frente da morte.

quinta-feira, 18 de março de 2010

CONCERTO: FLORENCE AND THE MACHINE

Na noite de 16 de Março de 2010, à porta da Aula Magna (Lisboa), viam-se alguns cartazes com o pedido de compra de bilhetes para o concerto de FLORENCE AND THE MACHINE. Isto porque os bilhetes, desde há algum tempo, estavam esgotadíssimos nas bilheteiras. A Aula Magna estava repleta de um público essencialmente jovem, muitos estudantes universitários que se faziam acompanhar das suas pastas, malas e jantares improvisados de gomas e chocolates.
O palco estava montado e decorado, no fundo, com um pano negro repleto de folhagem e flores.
Eram 21 horas quando começou a primeira parte com a banda britânica SIAN ALICE GROUP. São considerados uma banda de post rock, com bastantes laivos experimentalistas. Sem dúvida! E isso pôde ser constatado em palco. Estão formados desde 2006 e a frágil ,mas belíssima voz feminina, está a cargo de Sian Ahern. Muito poder em palco, muito experimentalismo e sons que nos levavam a acompanhar o devaneio artístico desta banda. Entretanto, começamos a aperceber-nos de uma presença saltitante numa das laterais do palco: era a própria Florence e a sua banda, que assistiam à primeira parte, dançando freneticamente! No último tema de Sian Alice Group, Florence decide sair do seu lugar e acompanha Sian ao tambor, terminando num abraço entre as duas. O público aplaudiu, em pé, Sian Alice Group. Após nova preparação do palco (introdução da harpa, das flores nos microfones e no tambor, colocação de três gaiolas que aprisionavam luzes no seu interior), entra a banda de Florence Welch, seguida da própria. Uma presença frágil, descalça, de vaporosa mini túnica branca, que deixava Florence executar os seus descoordenados mas constantes e enérgicos passos de dança. Desde o primeiro tema até ao último (cantado no encore), a energia e potência da voz de Florence foi explorada ao máximo. Também foi constante a sua boa disposição, traduzida nas suas gargalhadas e saltos pelo palco, tal e qual como se fosse uma fada ou ninfa a passear pelos bosques. Florence "manipulou" (de um modo muito positivo) o público português, levando-o a fazer coreografias ousadas e verdadeiramente loucas, como se estivesse a satisfazer os seus caprichos. E Florence delirou com isso, afirmando que foi o melhor público da sua tournée pela Europa, sendo este mesmo público que encerrava, como se fosse chave de ouro, esta sua digressão. Contra as regras institucionalizadas na Aula Magna, a vocalista queixou-se de que não estava habituada a ver o público assim tão compartimentado, nas suas cadeiras, mesmo que em pé. E pediu para o público dirigir-se todo para a beira do palco. Que todos os que estavam no anfiteatro saltassem o balcão e viessem para baixo. Incrédula, a assistência, olhava de uns para os outros...até que, para desespero dos seguranças, os membros do público começaram a saltar de cadeiras em cadeiras, pelos corredores, e sobre o balcão e condensou-se tudo à beira do palco. Foi impressionante ver a massa gigantesca a mover-se daquela forma, submetida à vontade simpática daquela cantora, que fazia tudo o que queria com o seu público. Florence estava em casa. E foi deste modo que apresentou o seu único álbum: "Lungs". Vale a pena conhecer. Tem temas excelentes, muito animados, com letras inteligentes e divertidas, ao mesmo tempo que nos oferece a voz potente de Florence Welch. O sítio desta banda no MySpace: www.myspace.com/florenceandthemachine
Ficou provado que FLORENCE AND THE MACHINE é uma grande banda para animar um festival de Verão...a ver se regressam!



sábado, 23 de janeiro de 2010

NA TELA DA TEIA: "Where the wild things are"


Este filme é uma adaptação de um livro infantil, com o mesmo nome, escrito por Maurice Sendak. Com realização de Spike Jonze e produção de Tom Hanks, acaba por ser um filme de crianças para adultos. Max é um miúdo com problemas comportamentais que o levam a querer ter todas as atenções da sua família em si. Após uma discussão com a sua mãe, ele foge de casa, trajando o seu fato de fantasia de coelho. Parte para um mundo imaginário que é uma ilha, cujos habitantes são monstros de proporções enormes. Para não ser devorado por nenhum deles, Max afirma que era um rei no local de onde vinha e aceita ser o rei desta tribo. Cada um dos monstros tem uma personalidade forte e isso é revelado ao longo do desenrolar da acção, enquanto Max relaciona-se com cada um deles. Ao mesmo tempo orienta a construção de um ninho para todos. Os monstros acabam por ser uma metáfora para os seres humanos. Estabelecem uma série de relações complexas, revelam os seus problemas e as suas atitudes exemplificam a nossa sociedade emocional. Max acaba por descobrir que não é muito diferente do mundo de onde tinha vindo...e que a melhor forma de lidar com os problemas e medos é enfrentá-los. E preencher tudo...com AMOR.
Por vezes, o filme perde-se um pouco no absurdo de alguns diálogos...mas acaba-se por perceber a semi-resposta à questão (que não o chega a ser!) do filme:"Where the wild things are?"...fácil: Apenas dentro de nós!Fiquei fã das autênticas "fotografias" deste filme. Muitos tons de sépia, muitos planos de vastos desertos e florestas secas sob um céu extremamente azul ou acompanhando um pôr-do-sol.
Também fiquei fã da banda sonora. O filme abre com Arcade Fire e ao longo do mesmo somos presenteados com temas de Karen O. and the Kids (Karen O. é a vocalista dos Yeah, Yeah, Yeahs!).
Sei que até já há merchandising à volta deste filme: roupa, acessórios, objectos e bonecos. É uma autêntica febre em alguns países! Quem vê o filme percebe.
Tenho de o ver novamente, agora um pouco desligada da história e mais centrada na imagem...como se estivesse a folhear um álbum de fotografias! :)
Eis os "monstros" (que estão brilhantemente concebidos):
Vejam esta montagem de partes do filme, com uma das músicas:

domingo, 17 de janeiro de 2010

Enquanto o Diabo peca Atrás do altar
Deus veste as asas de um anjo qualquer
Deixa a sua casa abandonada
Mas quem entra não vê nada
Para além da cegueira terrestre
As preces são outra forma de ilusão
De quem tenta superar a Vida
E quando o Anjo bate à porta
Da alma de cada um
Vestimo-la da cor que queremos
O meu Anjo Negro
Ao esquecer as chaves em casa
Visitou-me nesse altar.
Era eu quem estava a pecar:
Deus e o Diabo no mesmo rosto.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

OBITUÁRIO: LHASA DE SELA (1972-2010)

Folheava as páginas do Expresso, assim numa primeira tímida abordagem (antes de uma voraz leitura) quando encontro a notícia do falecimento desta diva da música: LHASA DE SELA. Tive uma espécie de baque...como se fosse uma daquelas coisas inesperadas que pensamos nunca vir a acontecer a qualquer um de nós, ou a alguém próximo de nós. Era um das artistas que esperava ver actuar ao vivo em Portugal (sei que já actuou, mas eu nunca tive o privilégio de assistir).
Infelizmente, faleceu na primeira noite de Janeiro. Cedeu à luta contra o cancro da mama; luta essa que já travava há 21 meses. Esta diva nova-iorquina (criada entre os EUA e o México) legou-nos uma voz de timbre grave e intimista, acompanhando suaves melodias cheias de significados fortes e de palavras densamente poéticas. Era a mulher que acreditava em lendas e em milagres...ficam três álbuns que valem a pena constar das nossas discotecas.Só lamento, de facto, não existirem milagres de modo a que esta cantora não se torne a lenda, mas sim continuasse a ser a mulher de carne e osso, de alma e de voz, entre nós, cantando e encantando, como só ela o sabia fazer.

Enquanto te perdias na névoa cinzenta
Eu seguia a tua voz cintilante
Como se fosses tu o farol num dia de tempestade
Em que eu tentava lançar âncora à vida.
Os fios das palavras ligavam-nos
Tenuemente
Pequenas lágrimas de gelo
No degelo das eras.
Mas o mar que nos movia
Era imenso entre os cantos da vida.
Alma demasiado grande
Para ser contida num só mundo.





sábado, 9 de janeiro de 2010

Existem sombras geladas por detrás de cada palavra dada no caminho por semear...salto entre linhas enquanto espreguiço os ramos acesos de fogos interiores por entre letras-combustíveis de textos castigados por uma Neo-Inquisição. Revolto-me em labaredas de corpo dançante enquanto solto nuvens dos cabelos como se fossem sonhos fugindo à frente de cavalos lançados por entre ondas gigantes, abraçando em fúria toda a terra.Mais cedo ou mais tarde todos os textos construídos cairão como peças de dominó perante tudo o que já foi dito. Esgotados como as forças da própria Terra, a compreensão da própria existência deixará o seu sentido ao acaso... ...como eu...