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domingo, 5 de dezembro de 2010

TEATRO EM ALMADA: O Luto vai bem com Electra, de Eugene O´Neill

O ciclo de três peças O luto vai bem com Electra (Mourning becomes Electra, 1931) de Eugene O’Neill regressa a um palco português, 67 após a sua estreia no Teatro Nacional D. Maria II – sob o título de Electra e os fantasmas –, onde foi encenada por Robles Monteiro, sobre tradução de Henrique Galvão. Numa nova produção da CTA (em Almada), Rogério de Carvalho dirige Regresso a Casa (Homecoming); Os Caçados (The hunted); e Os Assombrados (The haunted), partindo de uma nova tradução, encomendada a Helena Barbas. Esta trilogia compõe, assim, esta peça de quase 4horas em que o espectador vibra sobretudo com as emoções tão bem transmitidas pelo excelente desempenho dos actores. "Com esta trilogia, o dramaturgo norte-americano desejou que os seus compatriotas experimentassem – literal, formal e esteticamente –, a imensidão da tragédia, renovando a expectativa do público da Atenas do século V a.C, quando assistia nos festivais dionisíacos a grupos de três tragédias.
Inspirando-se na Oresteia, de Ésquilo – trilogia constituída pelas peças Agamémnon, Coéforas e Euménides –, O’Neill situa a acção no final da Guerra da Secessão, em 1865, quando o general vencedor Erza Mannon regressa a casa, na região da Nova Inglaterra (emblema da América genuína, por aí se terem estabelecido os Pilgrim Fathers no século XVII). Tal como Agamémnon, Erza é a primeira vítima da corrupção profunda da família, que se autodestrói pelo crime. Ora, onde Ésquilo buscara um horizonte ético e político onde a lei triunfa sobre a vingança, O’Neill desenha a atmosfera malsã do inconsciente insuspeito e indomável que hipoteca no homem a liberdade de perseguir o bem."


"Não sou obrigada a ir para longe - agora já não Seth. Estou amarrada aqui - aos Mannon mortos!" (fala de Lavínia)

Ficha Técnica:
Encenação: Rogério de CARVALHO
Tradução: Helena BARBAS
Cenário: José Manuel CASTANHEIRA
Figurinos: Mariana Sá NOGUEIRA e Patrícia RAPOSO
Assistente de Figurinos: Miguel MORAZZO
Luzes: José Carlos NASCIMENTO
Sonoplastia: Guilherme FRAZAO
Intérpretes: André ALBUQUERQUE, Bernardo ALMEIDA, Celestino SILVA, Laura BARBEIRO, Marques D 'AREDE, Miguel MARTINS, Paulo GUERREIRO, São José CORREIA, Sofia CORREIA, Teresa GAFEIRA

1 a 19 DEZEMBRO 2010
Qua e Sáb às 21h30 e Dom às 16h
Duração:cerca de 04h00m M/12


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O AMERICANO


Ontem fomos ver O AMERICANO em Itália...ou num cinema qualquer perto de si. O AMERICANO é uma realização de Anton Corbijn, um fotógrafo e cineasta neerlândes, que costuma trabalhar com os Depeche Mode, em termos de imagem. Também realizou o filme CONTROL.

Este filme relata a história de um assassino profissional (George Clooney...what else!) que se refugia numa pequena cidade italiana, à espera que o chamem para a sua última missão. Observando a vida dos outros, esta personagem apercebe-se que viveu uma vida inteira sozinho e durante este processo de reflexão, alguns descuidos profissionais poderão colocar em perigo este seu último trabalho.

É uma história "simpática", com louvores, sobretudo para a imagem fotográfica do filme e para o trabalho da Natureza (e do Homem...há que dizê-lo!) que nos apresenta imagens lindas da bela Itália. 


segunda-feira, 22 de novembro de 2010


Não há maior troca na vida do que aquela na qual se dá todo o sangue do nosso corpo apenas pela palavra mais certa no momento.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

foto de José de Almeida

Cada pétala desassossegada

que cai nas teclas brancas e negras

descobre a melodia mais suave

que as palavras podem tomar no caule de uma flor

No teu corpo adormecido

sobre a cauda desse piano

tocado gentilmente

pelas mãos de um artista.

Aquele a quem chamam de criador eterno

não sei se um deus ou a Natureza,

ela própria,

mas as mãos de quem dá a vida

e, ao mesmo tempo,

asfixia o seu testemunho

neste tempo e neste lugar.

Vi-te adormecendo descuidadamente

como se não existisse uma plateia

envergando máscaras de predadores

e como se essa mesma plateia

não fosse capaz de se mover do seu lugar

e tu dominasses a segurança

de ser o alvo sob os holofotes.

Arrastei a cadeira ruidosamente

só para te despertar.

Deixei-a cair, também.

Caminhei em direcção ao palco

e não senti os aplausos cairem sobre o meu rosto.

Sobre o meu corpo. Sobre o meu âmago.

Não senti nada a não ser a doce anestesia 

substituindo a adrenalina do sangue.

Enquanto subia as escadas e tu me olhavas desde ontem

até agora

despi todo o passado da minha alma.

Despi a religião do Homem

e deitei-a, no teu lugar, onde outrora adormeceste.

Prefiro caminhar nua.

Na tua mão deixei o fogo ateado.

Deixei a destruição.

E quando olhei para trás

as cinzas que restavam

não chegavam sequer para lembrar o teu nome,

as tuas palavras, as tuas orações.

Da cruz aos pregos

restou nada.



sexta-feira, 29 de outubro de 2010

eu sei

sei que vou nesta estrada

ladeada de prédios infinitos e crescentes

com cortinas de gentes adormecidas

pensando que espreitam através das suas janelas

os telhados aguçados rasgando o céu da alma

e chove sangue, chovem pedras, chovem palavras

que tentam acertar nos incautos caminhantes

que se esqueceram do guarda-chuva

algures no canto negro da sua existência

sei que vou nessa estrada

e as florestas morreram nos sonhos de quem as queria conceber

sei que todos os dias se deitam palavras em vão nas cordas a secar

esperando que o sol de outro dia enxugue as lágrimas da noite anterior

sei também que que os estendais estão pejados de molas sem peças

que o vento assalta e leva os sonhos que se estendem nesse anoitecer

mas sei que,  por vezes, as gentes adormecidas despertam

e afastam as cortinas da languidez

e abrem as janelas das suas almas

e dizem olá com o coração

eu sei que sim



sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Sempre que olho para as horas vejo qualquer coisa para além delas que me costura à carapaça de um relógio batendo no lugar do coração.

sábado, 19 de junho de 2010

...hoje acordei vazio, sem saber sequer o meu nome, e quando passava a água fresca e verdadeira pelo meu rosto esta misturava-se com o sabor acre-salgado das minhas lágrimas...a ausência de um rótulo, que nos faça pertencer à sociedade em geral, deixa-nos perdidos no meio de tantas questões...a mais famosa de todas, aquela que dizemos "quem sou eu?", sendo que a reposta superficial de um nome apenas acalma, mas não sossega, a inquietação de uma alma que caminhou toda a vida pelo deserto sem perceber o verdadeiro significado de tanta coisa...sendo que por coisa se possa entender objectos, pessoas e sentimentos...
...quando olhei o espelho vi o fantasma de todos os dias passados que me assombraram à esquina da vida e continuei sem reconhecer aquela máscara que fazia todos aqueles esgares à frente do vidro samaritano que me devolvia a minha imagem exterior...queria que me assaltasse por dentro e me revelasse os despojos desse acto de guerra e me ajudasse a reconhecer alguma coisa que me despertasse e me fizesse dizer..."eu sou..." porque eu não sei quem sou......enquanto desfazia a barba pensei que este gesto herdado de não sei quantas regras sociais se assemelhava tanto ao doce desfazer da vida que nascia e que se acumulava ao nosso redor como se fossem estantes repletas de livros, muitos dos quais que nunca seriam abertos, ou por não se entenderem, ou por não revelarem o interesse que nos identifica ou, simplesmente, por sermos vítimas da nova doença da modernidade: o stress provocado pela falta de tempo......fazia o café quente e forte como se fosse uma cena sexual e sagrada e o orgasmo da vida se perpetuasse por mais do que uns meros segundos...aquele despoletar para a vida que me acordasse e me desafiasse para o resto do dia...mesmo sem saber qual é o meu nome...qual é o meu corpo...qual é o meu futuro......existe qualquer coisa nos céus, hoje, que me faz querer terminar com estes actos diários e ser apenas mais um revolucionário que aprendeu a voar para além das sombras ditadas pelas regras desta máquina infernal onde só se escutam as vozes simétricas da multidão going in to the slaughter......não me encontro em nenhum recanto da memória nem em nenhum recanto desta sala, sendo que todos estes objectos acabam por ser uma afronta ao meu caminho interior e ao meu espaço físico...não consigo dar nem mais um passo em frente ou sequer atrás e são as areias movediças desta confusão caótica que me sugam para o fundo de mim mesmo...não me reconheço......não me recordo de ti, tu que estás fechada por detrás de uma moldura de vidro, com o teu sorriso comprado depois de preencheres um impresso para sorrir, e que olhas directamente para mim como se me conseguisses varrer a alma inteira, deixando a nu este ser que se esconde debaixo de toda a sujidade de uma vida inteira acumulada à base de ser quem não sou...quem és tu, já agora?......quando olho para baixo, metros e metros de distância abaixo de mim, sei que não vai restar nada...e continuarão sem saber quem sou eu e eu próprio sem saber de que sou feito...por isso mesmo, deixo-me cair, como muitos mais fizeram antes de mim...os demónios também desistem dos mortais...por serem mais inocentes do que estes últimos...não são só os anjos que caem...por isso deixo-me cair enquanto as minhas asas negras se despedaçam ao contrário do vento......o coração continuava a bater...acordei e senti um vazio deixado pelo sabor doce e amargo do sonho...umas asas negras toldavam-me o raciocínio mas eu sei o que devia fazer nessa manhã como em todas as outras da minha vida...por isso...lavei o rosto com a água fresca, desfiz barba acumulada de mais um dia, bebi o meu café forte e acordei para mais um dia lá fora...