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sexta-feira, 1 de março de 2013

2 de março: Polvo à Lagareiro com batatas a murro!

O polvo tem tentáculos. Pegajosos. Infestos.
O polvo é mutante porque tem tentáculos e vive como se fosse um ser humano.
O polvo, contudo, não tem moral; não tem conduta político-social e é um criminoso altamente perigoso, escarrapachado num poiso altamente poderoso.
São vários os tentáculos do polvo. É só uma a cabeça do bicho. 
Os alvos dos seus tentáculos, ao serviço do que se passa nessa mente ambiciosa e faminta de poder, são os verdeiros seres humanos que são atacados violentamente pelos seus tentáculos.
O polvo diz que representa a nação desses seres humanos, mesmo que estes últimos se voltem contra os seus tentáculos de várias formas.
Os tentáculos do polvo calam vozes; controlam imagens; salvam os próprios tentáculos que podem estar em perigo de queda; castigam os seres humanos; vivem através dos seres humanos, à sua imagem e semelhança, através do jugo do medo.
O polvo mama nas tetas da Fortuna e esmaga os seres humanos debaixo do seu peso obeso e lascivo. Violentamente pornográfico na sua imoralidade.
Os tentáculos do polvo criam pequenas máfias entre si, e uns tentáculos encobrem os outros porque julgam que os seres humanos não sabem ver.
O polvo esquece-se que o ser humano não se esquece.
O polvo não pensa que abusar do ser humano, através da máscara de outro ser humano, trará, mais cedo ou mais tarde, uma nova "fogueira das vaidades".
O polvo, inebriado de poder, não vê onde coloca os tentáculos.

O ser humano, desta vez, no dia 2 de março também quer comer…polvo à Lagareiro! Com batatas a murro!!!

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Morte de Cassiel

Tenho a porta aberta
Ao desespero solitário de quem bate,
Toca e foge,
Sem deixar rasto na alma
E cicatriz no coração
O reino por detrás dessa porta
Reflecte-se numa miríade de objectos
Como se fossem vistos pelos olhos de um insecto
À luz crua da realidade.
Sem dar lugar seja ao sonho seja à razão
Os céus são quebrados por voos alucinados
De anjos obscuros
Que perderam a sua religião
A inocência tolda-lhes o olhar
E o peso do futuro pecado
Vai-lhes depenando as asas
As penas
Uma a uma
Caindo como neve escura ou cinzas obliteradas
Sobre a terra desse meu reino
Por detrás dessa porta aberta
Para quem passeia o desespero
A horas certas e pontuais
O porteiro sou eu
E a chave está em mim
Podem entrar

domingo, 17 de fevereiro de 2013

diz-me

Diz-me o que há em Casablanca?
Diz-me o que há em Istambul?
Diz-me o que há em Bombaim?
Diz-me o que há aqui?

domingo, 10 de fevereiro de 2013

...sem querer...

Não há mais nem menos do que a regra e as excepções nascem de uma lógica imperfeita que, mesmo assim, teima em subsistir. E a vida surge-nos como essa excepção, à tona da morte onde tudo o mais é perfeito porque tem início e tem fim. Teima em ser o desvio que se assume como a verdadeira directiva do ser vivo, vivenciando-a como a última água do deserto. Um acaso original que nasceu sem pecado; nasceu extraviado e tudo o mais são comportamentos manifestos dos sobreviventes aglutinados em torno de uma bolha de oxigénio.
No meio do nada, completamente belo, surgiu este impulso incoerente, totalmente incoerente, que assina, obliterando, a beleza da perfeição: o não-existir.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

É só uma caixa...


Dentro de uma caixa de papelão existia um vácuo enorme que não esperava ser preenchido por nada. Nada havia que o preenchesse. Mesmo que a caixa se revestisse do papel mais bonito entre todos, e dos laços mais fulgurantes, continuaria vazia à partida.
É que o "nada" nunca se consegue preencher de qualquer coisa, porém tem a fantástica habilidade de se disfarçar com qualquer roupagem.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

All I Need

foto de Susana Júlio

O Senhor Sombra, que veio de outro planeta, quando chegou ao nosso perdeu muito tempo à procura do seu corpo.
Vários problemas se lhe depararam: um deles é que todos os corpos lhe pareciam idênticos; outro dos problemas é que todos se vestiam de cinzento.
Para os habitantes deste planeta tal não era encarado como um problema, antes como um hábito.
E o Senhor Sombra não compreendia como é que aqueles corpos não viviam com contrastes.. Formou-se-lhe um nó na garganta que não tinha e esfarrapado de esperanças refugiou-se numa caverna que encontrou por acaso. Estava angustiado.
Lá dentro acotovelaram-se, sem cotovelos, outros Senhores Sombras desermanados dos seus corpos e todos juntos transformavam aquele local numa caverna de Babel. Nada fazia lógica.
O nosso Senhor Sombra decidiu deixar de procurar o seu corpo e, ao invés disso, do fundo da sua caverna, olhou para cima e encontrou o sol. Como Platão uma vez contara há muito tempo atrás.
O seu ser etéreo foi atravessado por miríades de raios de luz, partículas brilhantes de pó flutuante, arco-íris miniaturas de faz-de-conta e um sorriso nasceu-lhe na sombra do seu rosto.
Não olhou para trás quando deixou a caverna.
Assim que um semáforo abriu a luz verde para um mar de gente invadir as estradas negras da rua, o Senhor Sombra sentiu-se repescado como um peixe num anzol e quando olhou para o corpo que se movia da mesma forma que a dele, reparou que também este olhava para o sol.
Debaixo do braço, o Senhor Sombra e o seu corpo levavam um bloco de desenhos. O seu corpo era um estudante de artes e o que mais procurava no mundo cinzento era conseguir ter uma alma colorida para expressar nas telas brancas.

sábado, 19 de janeiro de 2013


Chegaste quase ontem"...
Nem cedo nem tarde
À Hora certa de quem nem abre a porta nem a fecha
Mas entreabre o destino com a chave na outra mão
Que a esconde atrás de si.
"Chegaste quase ontem"...
Quando hoje é já Passado
marcado nos caminhos assinalados
de mapas-guias do futuro:
as cores que brilham nestas palavras
são os códigos que despertam
todo o sentido original da Vida.
Assim, sim, chegaste.
foto por Susana Júlio

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Não há maior feitiço do que a palavra.
Não há nada maior do que o ego encolhido dentro de um corpo mirrado.
Não há nada pior do que uma alma arrastada pelo quotidiano amarrotado de um bolso esquecido.
Não há nada mais grandioso do que gastar a vida no não saber viver para sempre enquanto a vida acontece a todo o momento.
Fuck society.



sábado, 15 de setembro de 2012

Trocam-se panos de misérias por corpos novos que vistam outros trapos e outras roupas deixadas ao abandono de lojas assombradas que pairam as suas portas abertas sobre as ruas molhadas de Inverno.
As receitas para se ser feliz já não são passadas porque deus demitiu-se do seu papel de médico, aliás, demitiu-se da sua própria criação e passou a ser apenas o empregado de balcão que serve o álcool para afundar as mágoas de quem passa pela vida. As pessoas acotovelam-se, moribundas, nas autoestradas que rasgam a existência até à última saída que é a morte.
Aqueles que seguem os desvios parece que encontraram a felicidade mas, logo a seguir, vêem-se de novo nessa autoestrada, a carpir as mágoas e os desesperos que se amontoam como os tais trapos de misérias.
Trocam-se...sim...como a água e o pão...como o sangue e como o corpo de um profeta qualquer que deixou palavras agora deturpadas que nem ecos são do que outrora foi dito.
 Sonhei com uma nova religião em que o Homem deixou de ser o centro individual de si mesmo e a Natureza passou a ser respeitada como a única força motora capaz de provocar desde a vida à morte o movimento e a paragem...a glória e o martírio. Sem passados nem futuros, sem projectos e sem abandonos, sem causas nem consequências. O que é...apenas é. Nada mais do que isso.
E o melhor nisto tudo...é saber que se pode fechar os olhos e fugir de si mesmo.