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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
que cai nas teclas brancas e negras
descobre a melodia mais suave
que as palavras podem tomar no caule de uma flor
No teu corpo adormecido
sobre a cauda desse piano
tocado gentilmente
pelas mãos de um artista.
Aquele a quem chamam de criador eterno
não sei se um deus ou a Natureza,
ela própria,
mas as mãos de quem dá a vida
e, ao mesmo tempo,
asfixia o seu testemunho
neste tempo e neste lugar.
Vi-te adormecendo descuidadamente
como se não existisse uma plateia
envergando máscaras de predadores
e como se essa mesma plateia
não fosse capaz de se mover do seu lugar
e tu dominasses a segurança
de ser o alvo sob os holofotes.
Arrastei a cadeira ruidosamente
só para te despertar.
Deixei-a cair, também.
Caminhei em direcção ao palco
e não senti os aplausos cairem sobre o meu rosto.
Sobre o meu corpo. Sobre o meu âmago.
Não senti nada a não ser a doce anestesia
substituindo a adrenalina do sangue.
Enquanto subia as escadas e tu me olhavas desde ontem
até agora
despi todo o passado da minha alma.
Despi a religião do Homem
e deitei-a, no teu lugar, onde outrora adormeceste.
Prefiro caminhar nua.
Na tua mão deixei o fogo ateado.
Deixei a destruição.
E quando olhei para trás
as cinzas que restavam
não chegavam sequer para lembrar o teu nome,
as tuas palavras, as tuas orações.
Da cruz aos pregos
restou nada.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
eu sei
ladeada de prédios infinitos e crescentes
com cortinas de gentes adormecidas
pensando que espreitam através das suas janelas
os telhados aguçados rasgando o céu da alma
e chove sangue, chovem pedras, chovem palavras
que tentam acertar nos incautos caminhantes
que se esqueceram do guarda-chuva
algures no canto negro da sua existência
sei que vou nessa estrada
e as florestas morreram nos sonhos de quem as queria conceber
sei que todos os dias se deitam palavras em vão nas cordas a secar
esperando que o sol de outro dia enxugue as lágrimas da noite anterior
sei também que que os estendais estão pejados de molas sem peças
que o vento assalta e leva os sonhos que se estendem nesse anoitecer
mas sei que, por vezes, as gentes adormecidas despertam
e afastam as cortinas da languidez
e abrem as janelas das suas almas
e dizem olá com o coração
eu sei que sim
sábado, 19 de junho de 2010
...hoje acordei vazio, sem saber sequer o meu nome, e quando passava a água fresca e verdadeira pelo meu rosto esta misturava-se com o sabor acre-salgado das minhas lágrimas...a ausência de um rótulo, que nos faça pertencer à sociedade em geral, deixa-nos perdidos no meio de tantas questões...a mais famosa de todas, aquela que dizemos "quem sou eu?", sendo que a reposta superficial de um nome apenas acalma, mas não sossega, a inquietação de uma alma que caminhou toda a vida pelo deserto sem perceber o verdadeiro significado de tanta coisa...sendo que por coisa se possa entender objectos, pessoas e sentimentos...
...enquanto desfazia a barba pensei que este gesto herdado de não sei quantas regras sociais se assemelhava tanto ao doce desfazer da vida que nascia e que se acumulava ao nosso redor como se fossem estantes repletas de livros, muitos dos quais que nunca seriam abertos, ou por não se entenderem, ou por não revelarem o interesse que nos identifica ou, simplesmente, por sermos vítimas da nova doença da modernidade: o stress provocado pela falta de tempo...
...fazia o café quente e forte como se fosse uma cena sexual e sagrada e o orgasmo da vida se perpetuasse por mais do que uns meros segundos...aquele despoletar para a vida que me acordasse e me desafiasse para o resto do dia...mesmo sem saber qual é o meu nome...qual é o meu corpo...qual é o meu futuro...
...existe qualquer coisa nos céus, hoje, que me faz querer terminar com estes actos diários e ser apenas mais um revolucionário que aprendeu a voar para além das sombras ditadas pelas regras desta máquina infernal onde só se escutam as vozes simétricas da multidão going in to the slaughter...
...não me encontro em nenhum recanto da memória nem em nenhum recanto desta sala, sendo que todos estes objectos acabam por ser uma afronta ao meu caminho interior e ao meu espaço físico...não consigo dar nem mais um passo em frente ou sequer atrás e são as areias movediças desta confusão caótica que me sugam para o fundo de mim mesmo...não me reconheço...
...não me recordo de ti, tu que estás fechada por detrás de uma moldura de vidro, com o teu sorriso comprado depois de preencheres um impresso para sorrir, e que olhas directamente para mim como se me conseguisses varrer a alma inteira, deixando a nu este ser que se esconde debaixo de toda a sujidade de uma vida inteira acumulada à base de ser quem não sou...quem és tu, já agora?...
...quando olho para baixo, metros e metros de distância abaixo de mim, sei que não vai restar nada...e continuarão sem saber quem sou eu e eu próprio sem saber de que sou feito...por isso mesmo, deixo-me cair, como muitos mais fizeram antes de mim...os demónios também desistem dos mortais...por serem mais inocentes do que estes últimos...não são só os anjos que caem...por isso deixo-me cair enquanto as minhas asas negras se despedaçam ao contrário do vento...
...o coração continuava a bater...acordei e senti um vazio deixado pelo sabor doce e amargo do sonho...umas asas negras toldavam-me o raciocínio mas eu sei o que devia fazer nessa manhã como em todas as outras da minha vida...por isso...lavei o rosto com a água fresca, desfiz barba acumulada de mais um dia, bebi o meu café forte e acordei para mais um dia lá fora...
terça-feira, 11 de maio de 2010
...um texto para uma imagem...
foto de Bernardo Costa RamosQuando nasceu, cedo demais, disseram que parecia ser mais velho do que aparentava...estranha coisa de se dizer acerca de algo que acabara de despertar para a vida, contudo o consenso era geral. Na idade dos porquês já sabia as respostas antes da necessidade das perguntas, sendo assim não falava quase nada. Passava por um ser tímido, outras vezes pedante, por não dar o outro lado da sua face à sociedade que o rodeava. A sua própria sombra assombrava-se com tamanha rapidez e discrição do corpo ao qual estava associada, pois de cada vez que queria fazer a mimese do mesmo, a sua intenção estava dessincronizada alguns minutos...
O seu primeiro beijo perdeu o sabor antes de chegar aos lábios e morreu na vontade de ser dado. Tal experiência marcara-o tão intensamente que passou a julgar todos os casais de namorados como seres insensíveis que apenas representavam um papel ditado pelas normas sociais do estado humano. Eis a sua noção de tentar entender o mundo: como se fosse realmente um palco e cada um desempenhando um papel pago pelo destino. Batiam as palmas apenas aqueles seres iluminados como ele que conseguiam ver por detrás da cortina. E vivia cada um dos seus dias com a certeza de estar um passo à frente da própria Vida.
Quando proferiam o que quer que fosse à sua frente, de antemão a sua mente testava os limites da flexibilidade em termos de chegar a todas as interpretações possíveis e saber entrelinhas era ofício seu, sagrado como o de um deus menor.
Como estava tão ocupado com todas estas suas considerações, que achava de todo naturais, não se apercebia de que a Vida também era fruto do acaso, e dos contrastes, e das montanhas russas e pessoais, e todos esses afins desequilibrados. Viver como vivia era um todo monolítico que prendia muito mais do que a árvore secular que via través da sua janela, todos os dias. Estava lá e era apenas isso e nada mais, provando que bastava existir. Contrato assinado; dia acabado; missão cumprida...e comprida. Quem passava à sua beira, por uns instantes que fossem, sentia a âncora desse peso antecipado na sua determinação: a de que ele chegava sempre cedo demais porque sabia tudo.
Mas, desta vez, quase que chegou a horas...deteve-se a olhar para as aves que desciam sobre ele como se fossem buscar o pão de todos os dias directamente das suas mãos...um dos negros anjos alados olhou-o de frente e sentiu-se derrotado. Apesar de ser a hora de o levar...ele ainda assim, chegara um pouco cedo demais, antecipando-se à sua tarefa.
O corpo, mesmo que ainda inspirando e expirando alguns restos de vida, já estava vazio; a sua alma caminhava sozinha à frente da morte.
quinta-feira, 18 de março de 2010
CONCERTO: FLORENCE AND THE MACHINE
Na noite de 16 de Março de 2010, à porta da Aula Magna (Lisboa), viam-se alguns cartazes com o pedido de compra de bilhetes para o concerto de FLORENCE AND THE MACHINE. Isto porque os bilhetes, desde há algum tempo, estavam esgotadíssimos nas bilheteiras. A Aula Magna estava repleta de um público essencialmente jovem, muitos estudantes universitários que se faziam acompanhar das suas pastas, malas e jantares improvisados de gomas e chocolates. Ficou provado que FLORENCE AND THE MACHINE é uma grande banda para animar um festival de Verão...a ver se regressam!
sábado, 23 de janeiro de 2010
NA TELA DA TEIA: "Where the wild things are"

Este filme é uma adaptação de um livro infantil, com o mesmo nome, escrito por Maurice Sendak.
Com realização de Spike Jonze e produção de Tom Hanks, acaba por ser um filme de crianças para adultos. Max é um miúdo com problemas comportamentais que o levam a querer ter todas as atenções da sua família em si. Após uma discussão com a sua mãe, ele foge de casa, trajando o seu fato de fantasia de coelho.
Parte para um mundo imaginário que é uma ilha, cujos habitantes são monstros de proporções enormes. Para não ser devorado por nenhum deles, Max afirma que era um rei no local de onde vinha e aceita ser o rei desta tribo. Cada um dos monstros tem uma personalidade forte e isso é revelado ao longo do desenrolar da acção, enquanto Max relaciona-se com cada um deles. Ao mesmo tempo orienta a construção de um ninho para todos. Os monstros acabam por ser uma metáfora para os seres humanos.
Estabelecem uma série de relações complexas, revelam os seus problemas e as suas atitudes exemplificam a nossa sociedade emocional. Max acaba por descobrir que não é muito diferente do mundo de onde tinha vindo...e que a melhor forma de lidar com os problemas e medos é enfrentá-los. E preencher tudo...com AMOR.
Fiquei fã das autênticas "fotografias" deste filme. Muitos tons de sépia, muitos planos de vastos desertos e florestas secas sob um céu extremamente azul ou acompanhando um pôr-do-sol.










