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quinta-feira, 19 de junho de 2008

4º tema do DESAFIO MUSICAL: Pilar Homem de Mello

Palavras e gritos de ordem. Contradições contra as regras e contra aqueles que dizem ser excepções. O fundo da alma tocando a consciência do que poderia ser uma depressão. Um curso desejado, depois de algumas indecisões entre História, Filosofia e Desenho…fiquei com as Letras. Entre o passado e o futuro, Lisboa acolhia-me de novo.
Os intervalos das aulas entre amigos de Filosofia, matraquilhos na Associação e pinturas de cartazes para as manifestações… muitas vezes, também em tempo de aulas tudo aquilo que referi.
Descobria o prazer das entrelinhas, o prazer das coisas simples (que entretanto esquecera com a ânsia de ser adulta), bebia das palavras dos poetas e dos filósofos como se estes fossem os grandes mestres da vida: Pessoa, Sá-Carneiro, Brandão e Pascoaes, Espanca e Meireles, Plath, Thoreau, Heidegger, Cocteau… Perdia-me entre a profundidade romântica de Friedriche e os traços oníricos de Dali, Klimt, Musante e de El Greco.
Na esplanada também se estava bem. O sol batia em cheio dentro de nós e as conversas pseudo-intelectuais vestiam-se de burburinho; a memória entrecruzava-se com o gosto de viver.A esperança incendiada dentro de “um copo sem fundo”, realmente…Na famosa manifestação dos estudantes contra as propinas (fazia parte da Comissão Anti-Propinas), nas escadas da Assembleia da República estávamos sentados de costas para a mesma, no cimo dos degraus, virados para a imponência de mil e tal estudantes unidos pelo mesmo grito. Só dei conta de cair pelas escadas abaixo, ser pisada; enquanto me levantava tudo parecia ser um trecho surrealista de um filme que não o meu, em câmara lenta…perdi os meus amigos de vista, gritos, choros., pessoas que corriam e caiam, e apanhei com o cabo de um bastão de um polícia da Força de Intervenção. Pelos vistos, agiram assim porque os estudantes iam invadir a Assembleia da República! De costas e sentados! Apanhei ainda mais, de cada vez que me tentava levantar. Saí na capa de uma revista do Jornal Público: em ponto grande a apanhar tareia da polícia! A minha mãe via nas notícias o que se estava a passar…não descansava...não sabia de mim…nessa altura não havia telemóveis para contactar com a família. Cheguei de rastos, dorida, magoada.
Apagava a raiva com a música. Fechava os olhos e curava as dores: as da alma e as do corpo.
A incredulidade nascia das cinzas e acordava no novo dia de uma nova sociedade para mim: a da mentira e corrupção política. Não chegava viver de idealismos. Os ideais magoavam. Os sentimentos magoavam. A confiança gorada magoava. Não se dava a volta ao medo…Recuperava músicas e músicos antigos: nacionais e internacionais. Sérgio Godinho, José Afonso, Mário Branco, Violent Femmes, The Pixies, Joy Division… e os clássicos Mozart (Requiem, vezes sem conta) Bach, Ravel, Debussy... A profusão de tonalidades adaptava-se às variações frequentes de estado de espírito. A Esfinge não teria maiores enigmas do que o meu próprio enigma na forma de viver e sentir a vida.
Saudades da criança que muitas vezes não fui.
Por isso, todos os dias era o “primeiro dia da minha vida”, em cada olhar, em cada palavra, em cada gesto, em cada passo, em cada noite que acabava, em cada descoberta nova, em cada desejo cumprido, em cada sonho nascido, em cada folha que caía do calendário da vida…o tempo daí até hoje… Ainda sobre o DESAFIO MUSICAL, o meu “TOP” está a ser:
Pink Floyd;
Mike Oldfield;
Depeche Mode,
Pilar Homem de Mello
Esta música foi escutada vezes sem conta. A letra cantada ainda sem mais conta…gosto mais deste resultado na voz de Pilar do que na original do Sérgio Godinho. É como que faz a junção de várias tendências e significados que grassavam na altura…mas ainda hoje me sabe tão bem voltar a escutar este tema.

...e ainda gosto de adormecer a ouvir música...

18 comentários:

berto disse...

I like this blog. for real!


loansrestructuring

Matchbox31 disse...

Gostei mt deste post!
Mas eu não consigo adormecer com musíca... tem que estar silêncio absoluto...

Teté disse...

Olha não conhecia esta versão, mas também gosto muito da música! Ela tem melhor voz que o Sérgio Godinho (que considero melhor compositor que intérprete, embora tenha a vantagem de fazer as próprias músicas que adequa às suas capacidades vocais).

Pois é, isto tem de se levar um dia de cada vez e pensar que "hoje é o primeiro dia do futuro que queremos".

Lembro-me bem dessas polémicas das propinas e do Vicente Jorge Silva (na época, director do Público) falar da "geração rasca" que suscitou também enorme celeuma. Se houve geração rasca, não eram certamente os estudantes, mas os governantes (e pior é que hoje estamos igual ou pior, que estes gajos vivem para os seus umbigos e estão-se nas tintas para os portugueses) e de um modo geral os que gerem a economia do país.

Também joguei muito matrecos quando andava na Faculdade.

Adoro adormecer com música, mas aqui para o "parceiro" tem de estar tudo em absoluto silêncio para conseguir adormecer, de modo que...

Gostei muito deste teu post! :)

Jinhos, amiga, e festinhas aí para os bichanos!

su disse...

berto: Really?! Pois...pois...


matchbox31: Obrigado. Já viste?! Eu sou precisamente o contrário...como te disse, o silêncio faz ecoar ainda mais alto a voz dos pensamentos! Beijinhos bem grandes.

teté: É uma versão muito bonita. Gosto da voz da Pilar. Mas ela é muito desaparecida da cena musical portuguesa. É...passo a passo parece-me que é assim...aproveitar cada um dos dias que temos como se fosse único e último, ao estilo do Carpe Diem. O que está para trás lá atrás ficou...e "HOJE" recomeça-se, again and again...

Beijinhos bem grandes, querida amiga.

Diego disse...

Gostei muito deste post :)



Ela é uma foufura e certamente que o teu animal tabem o deve ser :)


Bjocas

Gerlane disse...

Gostei dessa tua viagem no "túnel" do tempo. Desilusões e músicas sempre fazem parte da nossa história de vida e, somos toda essa construção de emoções boas e ruins e, digo-te mais: trabalho com adolescentes e jovens, e lamento o fato de vê-los hoje sem ideais e ouvindo "bobagens", músicas que nada têm a acrescentar ao conhecimento.

Beijos!

cõllybry disse...

Musica, adoro não passo sem ela, gostei desta Tua viagem no tempo...

Beijocas

Ana S. disse...

Realmente esta musica fica muito melhor cantada pela Pilar do que pelo Sergio lol.
Bom fim de semana.
beijos

Kátia disse...

Su,
Magnífico post!Eu sempre durmo e também acordo com música.E depois quando puder diz-me como é os pontos para eu responder este desafio,porque já escolhi as músicas e até já rabisquei alguma coisa para falar sobre elas,mas não "peguei" as regras do desafio.Pode ser no blog ou por email tá?
Beijo!

-›¦‹-Sombras-›¦‹- disse...

"Saudades da criança que muitas vezes não fui"... é algo que a memória não esquece, mas na renovação da vida e de nós mesmos a cada dia que passa, quem sabe, voltes a encontrar em ti essa criança "em cada desejo cumprido, em cada sonho nascido", que justifique o tempo daqui em diante... Beijinhos, mil

tonsdeazul disse...

Mais uma óptima escolha!
Eu também gosto de adormecer a ouvir música, muito embora depois desperte com a luzinha da aparelhagem e obviamente que depois tenho de me levantar para a desligar de vez. :)

Boneca de Porcelana disse...

Caramba... invejo-te. Afinal, estavas viva. Viva de verdade. Não te podiam destruir por mais que quizessem, porque estavas viva. Invejo todas as pessoas que estiveram vivas nesse período que é o da adolescência... irei eu algum dia recuperar desse vácuo? Será que o que ganhei nesse tempo me ajudará a preencher a cratera? Será que o facto de ter essa lacuna me levará ainda mais longe do que se a não tivesse? O tempo é um torano, mas tráz-nos respostas... e as respostas dadas pelos tiranos fazem-se sempre esperar.

Umas vezes sinto orgulho... outras sinto-me inferior... outras ainda simplesmente sei que o meu sacrifício será recompensado. O tempo é a resposta.

Nessa altura olhava estupefacta as imagens que me surgiam pela televisão, questionando-me o que achar delas. Questionando-me o que achar do mundo onde me tinham despejado, onde eu não tinha a certeza de querer existir.

Não sabia muito bem exactamente o singificado de nada e também ainda não tinha compreendido se tudo isto valia a pena.

Acho que este tipo de música é mais poesia musicada... nisto de música dou mais valor às melodias e arranjos sonoros, do que propriamente ao conteúdo, curiosamente, acho que ao contrário do que valorizo em qualquer outra arte.

Gosto de olhar cada dia da minha vida como se fosse o primeiro do resto da minha vida... e também gosto de adormecer a ouvir música. Embora não o faça há muito, porque a porcaria dos phones magoa-me as orelhas!!

Beijos!!

su disse...

lenita: Estava viva e estou viva e havemos d eestar...tal como tu...apenas adormecida...umas vezes, adormecemis assim um pouquito para a vida mas há muitas coisas que podemos recuperar e não vale a pena viver na angústia e lamento do passado. Afinal, podes preencher agora a tua vida com coisas extra mirabolantes que te farão desgastar todas as tuas forças em formas de vida...e quando olhares para trás seria desta altura que te lembrarias primeiro.

Olha, eu a mim também de dói as orelhas por causa do phone direito...aliás, por causa do piercing...mas mesmo assim...não desisto...sou mais teimosa!!! :)))

Boneca de Porcelana disse...

Ehehehe, essa parte do piercing deve complicar as coisas!! ;-DD

Ai... as sombras do passado, como tu própria dirias, sufocam-me agora... sinto amargura... e sinto que contra ela nada posso fazer... a única coisa é deixar-me levar e ver as coisas acontecer... espero que aconteçam em breve e suplantem esta sensação de desperdício...

Bjoka

su disse...

lenita: O piercing ultrapassa-se! ;)
A sensação de desperdício acabará por ser suplantada por tudo o que fizeres agora e que amanhã será o teu novo passado! É uma questão de "investir"! ;))))

Porcelain Doll disse...

:-)) Nem sabes o que essas palavras signbificam para mim... obrigada minha querida. Mesmo.

su disse...

lenita: Olha, não é nada de transcendental mesmo...acredita prque algures na minha vida, e não foi assim tão longe esse "algures" acabei por comprovar que assim é. É uma questão mesmo de fazermos um esforço extra, mesmo que às vezes pareça contrariado, e "investir" no agora, com força e risco...o que receberemos sairá melhor como recordação de um passado, daqui a uns tempos próximos...acredita.

Porcelain Doll disse...

Investir... sinto que finalmente consegui voltar a investir... porque há momentos em que nem disso és capaz... que... raiva!!

Acredito sim minha linda... tenho de acreditar e acredito muito muito muito...

Beijo grandee!!